A história de Kumba Yala: um exemplo para João Lourenço


Por José Gama


A denuncia do Presidente João Lourenço feita na última reunião do CC do MPLA, segundo a qual a estratégia da manifestação de 24 de Outubro, seria para “tornar o país ingovernável para forçar negociações bilaterais no actual contexto político”, que em outras palavras significa derrubarem lhe do poder, remete-nos a duas analises. Que o Presidente está vulnerável a informações de alegados “derrubes”, tal como esteve o seu antecessor JES. A segunda analise, remete-nos a olhar o que aconteceu com o Presidente Kumba Yala, da Guiné Bissau.

Em Setembro de 2003, o então Chefe de Estado Maior da Guiné Bissau, general Veríssimo Correia Seabra avisou ao Presidente Kumba Iala que estava em curso um levantamento militar e que precisavam leva-lo para um local seguro. Kumba foi levado e guardado numa sala no Quartel Geral. Quando o levantamento militar terminou, os militares, segundo uma descrição do jornalista Luís Castro (no seu livro repórter de guerra), perguntaram ao Presidente: “Quer ficar aqui, no quartel-general ou ir para casa?”, Kumba respondeu: “Prefiro ir para casa, estou cansado”. Os militares formaram um coluna e levaram-no. Quando viu que estava a ser levado para casa, perguntou a um dos seus oficiais:

“Para onde vamos? Eu quero ir para a Presidência.”. Seguiu-se um diálogo hilariante: “Não podes”. “Mas não posso porquê?”. “Porque houve um golpe.”. “Um quê?”. “Um golpe de Estado”. “Contra quem?”. “Contra ti”. “Contra mim?”. “Sim. E já não és Presidente!”. “Então quem é?”. “É o Veríssimo”. “O Veríssimo?”. “Sim, o Veríssimo. Tu já não mandas!”. “Ai o filho da puta, cabrão, vou matar-te!”. Foi preciso metê-lo à força dentro de casa.

Sem ter havido derramamento de sangue, o general Veríssimo Correia Seabra, depôs Kumba Yala, numa brincadeira e tornou-se no 8.º Presidente da Guiné-Bissau.

Trazemos esta historia de Kumba Iala, para manifestar preocupação sobretudo quando vemos o Presidente João Lourenço, a chamar de emergência o ex-líder da UNITA, os Bispos e de seguida reportar ao CC do seu partido que os jovens manifestantes pretendiam tornar “o país ingovernável para forçar negociações bilaterais”. Torna-se ainda preocupante ainda quando vemos o Secretário do Estado do Interior, Salvador Rodrigues apresentar dados empolados sobre a tal manifestação, e mais ao sul, o comissário Francisco Ribas a anunciar dados falsos para reprimir militantes da UNITA e do PRS, na cidade do Huambo. Fica-se com a ideia que os comandantes da Polícia Nacional estão a brincar aos “derrubes” com o Presidente da República.


José Gama é jornalista e activista angolano

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