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Morte de Daviz Simango fragiliza a democracia moçambicana


Não é apenas a Cidade da Beira que perdeu o seu edil carismático, não é apenas o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) que perdeu o seu líder e fundador, não é apenas o Conselho de Estado que perdeu o seu membro, é sobretudo a democracia moçambicana perdeu um dos mais importantes actores dos últimos anos. A democracia moçambicana perdeu o homem que ousou desafiar o bipartidarismo há muito dominado pela Frelimo e Renamo. Primeiro ao concorrer como independente na Beira, vencendo com larga vantagem candidatos da Frelimo e Renamo, e segundo ao fundar e liderar o MDM, partido que desce cedo tornou-se na terceira força política em Moçambique, com representação parlamentar em três mandatos consecutivos.


A trajectória política de Daviz Simango começa em 2003, nas segundas eleições autárquicas em Moçambique. Ele concorreu pela Renamo e foi eleito Presidente do Conselho Municipal da Beira, a segunda cidade mais importante do País. Seu desempenho bastante elogiado na gestão da autarquia da Beira parecia suficiente para que a Renamo voltasse a apostar no seu nome nas eleições de 2008. Contra todas as expectativas, Afonso Dhlakama preteriu Daviz Simango para candidato na Beira e apostou em Manuel Pereira, o histórico delegado da Renamo em Sofala. Mesmo assim, Daviz Simango não desesperou. Ele seguiu em frente e concorreu como independente, capitalizando o apoio e a solidariedade que recebeu dos munícipes da Beira. Venceu a eleição com uma larga vantagem, deixando para trás os candidatos da Renamo e da Frelimo.


Era a primeira vez que Moçambique testemunhava a eleição de um candidato independente nas eleições autárquicas. Um ano depois de assegurar a presidência da autarquia da Beira, Daviz Simango funda, em Março de 2009, o MDM, partido com o qual concorreu às eleições presidenciais e legislativas em Novembro do mesmo ano. Conseguiu ficar em terceiro lugar na corrida à Ponta Vermelha e o seu MDM, que tinha apenas 8 meses, fez história ao eleger 8 deputados à Assembleia da República. O novo Partido quebrava, assim, Créditos: DW a bipolarização que dominava a política moçambicana.


Em 2013, volta a disputar a presidência da autarquia da Beira, desta vez com o suporte do MDM. Daviz venceu os seus concorrentes sem dificuldades, garantido assim um terceiro mandato na segunda cidade do País. Em 2014, volta a ser aposta do MDM para as presidenciais, tendo novamente ficado em terceiro lugar, com 6.4%. Nas legislativas, o MDM conseguiu eleger 17 deputados, quase o dobro em relação ao mandato anterior. Um desempenho digno de registo num País onde as eleições não são transparentes e livres e os partidos da oposição são vítimas de intolerância política, incluindo a violência contra os seus membros. Nas últimas eleições autárquicas de 2018, Daviz Simango foi cabeça-de-lista do MDM e voltou a ser eleito edil da Beira, pela quarta vez consecutiva.


Nas presidenciais de 2019, Daviz renovou o título de terceiro candidato mais votado, desta vez com 4.4%, um desempenho ligeiramente abaixo do conseguido em 2014. Nas legislativas, o MDM também manteve o estatuto de terceira força política, apesar de ter tido o seu pior registo, ao eleger 6 deputados. Isto é, o Partido perdeu 11 assentos que havia conquistado em 2014. Nas eleições provinciais, o MDM não conseguiu eleger um único Governador da Província. Além da Beira, o MDM liderado por Daviz Simango conseguiu eleger edis em duas cidades estratégicas do centro e norte de Moçambique: Quelimane – nas intercalares de 2011 e nas quartas eleições autárquicas de 2013; e Nampula, também em 2013. Em 2014, quando a votação foi repetida em Gúruè por decisão do Conselho Constitucional, o MDM venceu as eleições e elevou para quatro o número de autarquias lideradas por seus membros naquele mandato.


A trajectória política de Daviz Simango, quer como edil da Beira, quer como líder do MDM, é um importante contributo para a democracia moçambicana. Ele demonstrou que é possível uma alternativa na cena política moçambicana, tornando a democracia mais pluralista. Por isso, o CDD entende que a sua morte é uma grande perda para a democracia moçambicana. À luz do actual regime jurídico que regula as eleições nas autarquias locais,


Daviz Simango será substituído pelo segundo membro da lista do MDM. Daviz perdeu a vida na madrugaCréditos: DW da de segunda-feira, 22 de Fevereiro, na África do Sul, vítima de doença. Ele foi levado de emergência para África do Sul no dia 13 de Fevereiro, após agravamento do estado clínico. Daviz Simango nasceu no dia 7 de Fevereiro de 1964, na Tanzânia. É filho de Uria Simango, um nacionalista que lutou pela independência e chegou a vice-Presidente da então Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), antes de ser expulso em 1969. Nos anos imediatamente a seguir à independência, Uria Simango e sua esposa foram levados para os tristemente célebres campos de reeducação, onde acabaram sendo executados pelo regime da Frelimo, sob acusação de serem “traidores”.

Fonte: CDD

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